Pé no Jacá


Machos têm medo

 

Nosso primeiro encontro ocorreu há cerca de três anos, casualmente na casa de amigos em comum. De cara rolou uma simpatia mútua, travestida na furtiva troca de olhares. Dali, resolvemos esticar a noite com nossos amigos e terminamos por nos conhecer melhor. Sim, ela me meteu medo. Um medo tranquilo.

 

No encontro seguinte, também na companhia de nossos amigos, nós nos revelamos mais e ela sem meandros me disse a que veio. Ela me meteu medo de novo, um medo de responsa.

 

Me parece que a terceira vez é emblemática para as mulheres. Sozinhos, dançando, ela esbanjava sua beleza e provocava olhares dos comensais. Tive de tirá-la dali pra poder garantir minha boquinha... Que medo que me deu, eu não acreditava no que via.

 

Mas o melhor estava por vir. Mais íntimos, sugeri algo mais romântico: um cineminha, seguido de um jantar e depois decidiríamos o que fazer. Nos encontramos no estacionamento de um shopping. Antes de seguirmos ao cinema, ela me pediu que fosse até seu carro, queria me dar algo. Lá: uma cesta com vinho, queijos e otras cositas más. Pulamos o cinema, fomos ao jantar! Uma mulher fazendo isso? Que medo da porra!

 

Alimentado e deitado em meu “berço esplendido”, ela decidiu me aterrorizar: em pé no berço, ao som da magnífica Beyouncé, a minha Beyouncé dançava exibindo o corpo malhado de coxas perfeitas. Gozei de medo naquele dia...

 

Os dias se passaram, e o macho alfa resolveu colocar o rabinho entre as pernas e sumir do mapa. E não são pouco os dias, em que este macho alfa se pergunta se não teria mais coragem agindo como um macho beta...




Escrito por Pablo às 19h00
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Chocolates e a covardia dos cinco contra um


Um amigo meu me contou que foi ao médico hoje lhe mostrar os resultados dos exames de sangue e urina que havia colhido semana passada. Esse meu amigo tem feito exames regulares há pouco mais de um ano por conta de algumas intercorrências...

Médico: bom, sua creatinina está ótima (chegou a níveis estratosféricos um ano atrás).

Meu amigo: disse que sorriu.

ME: você anda abusando da gordura? Seu colesterol tá meio alto.

MA: não, tenho comido salada e grelhados no almoço, não tomo mais cerveja e praticamente escapo das frituras de boteco.

ME: e o jantar?

MA: é a comida que toda mãe faz. Mas eu (ME) como pouco.

ME: e doces?

MA: aí meu amigo fez uma cara de “xi, fodeu!”. E falou: tenho comido alguns chocolates. Quando disse isso fez cara de cara de pau.

ME: Suas espinhas não negam isso...

MA: disse que tem comido um twix após o almoço junto com o cafezinho que a moça do trabalho prepara.

ME: Só isso?

MA: Lembrou-se dos dois ovos de páscoa que comeu sozinho. O primeiro, contou, foi um caseiro. Trufado, veio com dois sabores: metade prestígio, metade maracujá.

ME: salivou.

MA: o segundo foi um talento verde, disse.

ME: Você vai de cortar os doces.

MA: tudo bem. Aí ele disse que tem comido granola todos os dias pela manhã, mas que não come pão. Omitiu os pães de queijo que como às sextas...

ME: pediu para aumentar a quantidade das fibras e diminuir a granola. Completou dizendo que meu amigo terá de perder uns oito quilos. E perguntou qual era a rotina de exercícios do MA.

MA: disse que fazia exercícios cinco vezes por semana. Também disse que fazia esteira e bicicleta ergométrica, estes com menos frequência.

ME: disse então que a rotina explicava a creatina um pouco elevada, o que é normal pra quem pratica exercícios. Ele então disse que o exame de urina apontava uma leve hematúria. E perguntou se meu amigo havia tido relações sexuais recentemente?

MA: meio que desconversou e o médico entendeu.

ME: disse que seria necessário investigar o que poderia ser, mas que a princípio não era nada grave. Daqui um mês, novos exames devem ajudar a saber o que pode ser.

MA: levantou-se pra sair da sala, mas antes de ir, perguntou: um corte na mão pode explicar a hematúria?

 



Escrito por Pablo às 21h50
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Torpor

Pra não brigar com uma mulher, que falava durante quase todas as músicas, me levantei e vi a metade final do show em pé, num local mais próximo ao palco do que a mesa onde estávamos. Quando tocou A Violeira pensei em agradecer a mulher. Foi o ponto alto do show pra mim. Dançar bem miudinho como pede o ritmo, quase um xote, foi incrível (como diria o Andrei, que também não segurou as lágrimas durante o show!). Nat (não a do Andrei) essa é pra você: ao final do show, o torpor pós-coito se fez presente, rs.



Escrito por Pablo às 18h01
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O Big Brother e a Tsunami 


 

Os relatos são um pouco desencontrados. Alguns dizem que acordei dia 20, outros, dia 18 e por aí vai. Pra mim, a primeira lembrança é do dia 20 de março, data do aniversário de mamis. Particularmente, considero esse período como o do chamado renascimento. Dias antes, um dos médicos residentes conversou com a minha mãe e, com lágrimas nos olhos, disse a ela que eu iria sobreviver, porém, muito provavelmente com o cérebro de um feto. Me contaram que a reação dela foi a de dizer que não importava, que ela queria o filho de qualquer jeito. Hoje, me pergunto se ela realmente não gostaria de ter um quase bebê em casa, porque menos de um ano depois, o fetinho envelheceu 34 anos, não bebe, é ranzinza e só não reclama muito porque tem os fiéis barbitúricos em seu criado mudo.

Lembro-me de que logo que acordei, colocaram uma TV de LCD pequena de marca AOC na UTI. Tinham fotos da família e dos amigos num mural também. Mas o que me deixava mais intrigado era o Big Brother Brasil. Nunca gostei do BBB e eu tinha a sensação de que aquela TV só passava isso. Eu não falava ainda, então não podia reclamar. Eu não tinha noção alguma do tempo nem do que havia acontecido comigo. Pra mim, o BBB já tinha acabado e gravaram o troço, e agora colocavam pra eu ver. Porra, eu não gosto de BBB. Será que queriam me deixar nervoso e provocar reações em meu cérebro? A teoria persecutória teve fim tempos depois, quando passei a compreender o que havia acontecido e recobrado parcialmente a noção de tempo-espaço.

Ao escrever este texto (4h07 da manhã – tenho pilates às 7h e não quero perder a hora), me lembrei do jogo Brasil e Escócia (por coincidência exatamente há um ano), que foi a primeira vez em que o Neymar mostrou aos caras a que veio. Também me lembro do terremoto e a seguinte tsunami no Japão. Hoje, os números são de 13.333 mortos e 14 mil desaparecidos. Pode-se dizer que 27.333 pessoas morreram. Outros tantos milhões perderam filhos, pais, amigos, parentes e amores. Minha filha, meus amigos e minha família me ganharam novamente.

Quando já conseguia digitar sozinho, comecei a pesquisar algumas coisas que haviam ocorrido no período que passei dormindo. Nunca havia me dado conta de como muita coisa importante pode ocorrer em dois meses sem que a maioria das pessoas deem a essas coisas a importância que talvez merecessem. O que é absolutamente compreensivo levando em conta o ritmo de vida que temos. Sabiam que o Sharon tá vivo? Viu, eu pesquisei. E o Fábio Barreto, como tá? Vai procurar na rede. Alguns amigos durante o tempo em que fiquei internado me enviaram emails contando o que rolava no mundo enquanto eu estava fora do ar. Voltei a trabalhar e recuperei os emails (estavam no servidor do trampo – cansei de me foder por não manter cópias de arquivos e mensagens que por descuido pudessem ser apagadas). Após ler umas cinco mensagens, apaguei todas. Além do que acontecia no mundo, eles davam conta do que acontecera e do que acontecia comigo. Não me senti muito bem ao saber de algumas coisas e deletei tudo. Em relação ao que aconteceu no mundo, sinceramente, me sinto mais bem informado a respeito da maioria das coisas do que o pessoal aqui de casa...

Conversando com meu ex-cunhado, Daniel, no domingo, falamos sobre uma coisa que tenho pensado muito. Sobre viver um dia de cada vez. Não só por conta do ritmo de vida que levávamos antes (ele também bebia bem e levou dois paus homéricos, a ponto de ficar todo engessado), mas de como as coisas podem ser mais simples. Um terço do ano passou e, com certeza, tem gente que torceu pra 2011 acabar e agora já anda maldizendo 2012. Como se a culpa fosse do tempo. O tempo tá aí, imutável aos nossos olhos talvez, mas ainda bem que o temos, né?

Gostei dessa passagem do texto que postei ao final do ano passado: Muitas pessoas devem estar contando as horas para o dia de hoje chegar ao fim, como se por mágica os problemas e a tristeza sucumbissem aos fogos da virada, mas amanhã ainda teremos as mesmas preocupações, porém a determinação poderá fazer diferença rapidamente.

E a diferença, óbvia até para cegos, é o que iremos fazer com o nosso tempo! Sentar, esperar, maldizer? É uma solução. Ou uma não solução. E eu já a cansei de usar e, com certeza, vou usá-la novamente, mesmo conhecendo bem o lugar insosso a que ela me levará. Mas fazer diferente não é fácil, aliás, não é nada fácil. Tem de ter peito!

Mas eu, não só por hoje, quero ter peito.

Não só por hoje, quero tentar fazer diferente.

 

 



Escrito por Pablo às 05h46
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Humano, o corpo

Segunda-feira me impus mais um exercício bretoniano. Acertei o cronômetro em dez minutos. Apaguei luzes, desliguei aparelhos. Os desconectei da tomada para que nem mesmo a luzinha do stand by pudesse desviar meu foco. Olhos fechados novamente, breu total. Silêncio da madrugada, atrapalhado em alguns momentos pelo latido longínquo do cachorro que “dorme” no quintal próximo.

Saí vasculhando em mim. Procurando marcas, sequelas ou algum sinal dos traumas. Nada. Ao passar pelo Sr. fígado pensei ver algo, mas ele só estava metabolizando as proteínas do shake que tomei à noite. Os brothers rins sorriram e se desculparam pela rabdomiólise (como se fossem culpados! Coitados, foram os que mais sofreram). E será que a bexiga sofreu também? Confesso que não sei. Passei batido pelo pâncreas, estômago e intestino, mas eles não me levaram a mal, mandaram um abraço. Bati um papo rápido com o baço, que me contou que a infecção foi porreta! Fiz meu tour anatômico em ordem aleatória, pulando com meus olhos de lá pra cá e por aí e ali. Subi até a cachola e encontrei vários pontos torrados, não sei o que é isso (ou o que eram). Creio que pode ser algo ligado à apóxia. No pulmão encontrei um pouquinho de muco, mas bem clarinho, nada que preocupe o órgão combalido de outrora. Coloquei os olhos para fora e constatei pequenos estragos: quatro marquinhas no pescoço dos acessos da hemodiálise. Tem o buraquinho da traquio, mas que um japonês louco disse que vai dar uma “local” ali, e resolver tudo rapidinho! Vantagem de ser peludo: quem tem acesso parenteral aí? Até pensei que precisaria tomar calcigenol (um remédio que meu pai dava pra Catucha, a pastor alemão mais linda que já existiu no mundo!), mas demorei tanto pra andar, me apoiar e fazer qualquer tipo de esforço, que nem lembrava que existiam ossos. Eu tava estranhando não ter tomado duras muito fortes até agora (realmente acho que o pessoal tem dó de mim, mas já falei, pode vir, acho que mais nada vai doer... ok, dar a bunda deve doer, mas espero que os caras de cima ou de baixo me levem caso eu tenha comichão um dia – sorry, não quero ofender quem tem... esse parêntese ficou meio proustiano!), mas quando fiquei frente à frente com o LP foi foda. Ele me destruiu, disse: “sei que muitas vezes você agiu como se tivesse me encontrado no lixo, mas foi imensamente melhor me chafurdar naqueles agridoces becos do que correr o risco de nunca mais ser utilizado”. É, foi uma dura homérica desferida pelo LP, mas muito justa. Justíssima!

Eles são especiais e por isso merecem um parágrafo-capítulo à parte. São os corações. Sim, os. Dois. A morte completa (será que existe essa merda?) não é constatada somente quando o coração para, fato. São muitos os casos em que o esforço de outrem o mantém pulsando, mesmo que artificialmente, mesmo que na base da porrada. E não perguntei aos dois como foi que ambos foram salvos, mas senti que um ajudou ao outro; que quando um parou pela primeira vez, o outro elevou o ritmo e, mesmo imperceptível paras as máquinas e meus semi-deuses (não há ironia nisso), me fez regressar. Fraco, o músculo que se esforçou demais havia oito dias, fraquejou.  Seu parceiro, meio cambaleante, o socorreu. Sinestésico que sou, percebi que os 16 dias seguintes foram de apreensão praqueles meninos. Os dois estavam fracos e receosos de terem empregado um esforço descomunal em vão. E na madrugada do dia 6 de março de 2011, iniciaram, unidos, a mais importante jornada de “suas vidas”.

Por infindáveis dez minutos, os dois pareciam sucumbir aos poucos. O olhar desesperado de ambos escoava vermelho pelas suas quatro veias cavas. Se abraçaram. Se uniram. E num amálgama que ainda não encontrou explicações metafísicas, fizeram rufar novamente o tambor da minha vida!

 

PS: o aviso inicial de que se tratava de um exercício bretoniano não foi à toa. Me permitiu viajar por aí sem o receio de soar insano. Se é que é possível pensar num exercício como esse e não ser insano. Pois bem, e em caso de erros em minha descrição anatômica, culpem o Wikipédia!

 



Escrito por Pablo às 20h49
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Quatro bagatelas

 

I

Todas as soluções são boas

menos a que você escolher.

Escolha, sim. (Mesmo que doa,

dá uma espécie de prazer.)

 

II

Nenhuma explicação

entre o pé e a mão.

Transcendência nenhuma

entre o sabugo e a unha

 

Ao corpo, masmorra sem porta,

pouco importa que você morra.

 

III

Viver momento a momento

com a insensatez dos insetos

que arremetem impávidos

contra o real da vidraça

obedecendo sem trégua

a lógica imperturbável

que trazem em suas entranhas

 

IV

Vida sempre rascunho, folha sem pauta,                                

pasto de lacunas e rasuras,

risco sobre risco, pré-

-texto de nada.

 

Paulo Henriques Britto

Revista Piauí, edição de fevereiro 


Quando comprei este cd há uns dez anos, fiquei meio surpreso quando descobri que foi o primeiro que o João Gilberto havia gravado acompanhado somente por seu violão.




Escrito por Pablo às 21h53
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Crenças e religiões

Esse foi o primeiro final de semana que passei fora de casa em um tempão. Fui à São Pedro, onde vive parte da minha família. Foi revigorante, como também tem sido o retorno ao trabalho. Em fevereiro, minha vida voltou, meio cambaleante ainda, a o que era há um ano. Digo cambaleante porque não retomei minha vida social fora do trabalho, mas espero em breve voltar a fazer as coisas que sempre gostei: ir ao cinema, sair e ouvir música (dançar ainda é meio estranho, pareço um mamulengo. E quando não foi assim?), ir ao Ibira e não me preocupar com meu jeito de andar (tô quase lá), ir ao teatro, shows, a bares que tenham bebidas sem álcool (o Barnaldo tem um mojito sem álcool, que custa o mesmo que o com álcool, R$ 13,00, vai se foder!).

Eu acho que vocês devem fazer ideia do que essas coisas representam pra mim. Sempre sai muito, adorava ir a bares novos, assistir aos filmes às segundas e terças pós estreias (cinemas menos cheios) e tudo mais que pudesse fazer. Mas agora, tudo ganha um novo significado pra mim (sempre detestei o lugar comum “as pequenas coisas da vida”, mas...), então sair de casa e ir ao trabalho por um caminho diferente já é uma puta alegria; ver aquela bela casa onde gostaria de viver, me enche os olhos... E é muito bom sentir isso! E espero que todos possam sentir isso. E não espero que seja somente algum dia, torço pra que seja sempre, como tem sido comigo até agora. E essa é uma tarefa que tento me impor a cada dia: perceber a beleza que há em diversos momentos do dia, mesmo que eles se repitam a cada dia. É evidente que penso assim porque sofri um pouquinho nos últimos tempos, mas quem sabe um esforço especial seja recompensado ao final do dia.

Mas também as grandes coisas estão diferentes pra mim, como um final de semana tão cheio quanto esse. Minha mais nova prima, Yasmin, nasceu no dia 1º de abril do ano passado e meu tio Daniel, a quem sempre fui muito apegado (da mesma forma que sou ao meu tio Luiz), me convidou, assim que tive alta, pra ser o padrinho da pequena Yasmin. Foi demais, fiquei bem feliz. No início desse mês, fiz o curso pra batizado na paróquia ao lado de casa e me dei conta de que nunca havia procurado saber o significado do batismo ou do que era ser padrinho. Na verdade, eu até sabia o que era ser padrinho, mas ouvir e ler as “obrigações” que teria de ter ao aceitar a incumbência me fez refletir sobre quem sou realmente e quais valores tenho de passar à (pronome possessivo, crase facultativa, eu acho) minha afilhada. E me senti orgulhoso ao perceber que agi, na maior parte do tempo, de uma maneira bastante digna com meus sobrinhos, o que reforça minha tese de que o que os nos molda como “homens” está além de crenças e religiões. Principalmente ao ver diariamente o discurso de quem se considera religioso, mas que quando o bicho pega, nos mostra o quão irascível podemos ser. E não adianta argumentar nesses casos, você será só mais um sofista.

O final de semana cheio começou com o trânsito no final de tarde com chuva de uma sexta-feira escaldante. Sair de São Paulo foi sufocante no início e refrescante ao final, mais de três horas depois. Pra quem não gosta, já aviso, minha vó é macumbeira e vou falar disso. Fui ao centro de umbanda que ela mantém desde antes de eu nascer, no qual não colocava os pés há uns cinco anos, no mínimo. Fui só pra olhar, ouvir o som do atabaque. Minha vó tem 73 anos e sofre com dores nas costas e no joelho. Anda curvada o tempo todo. Nunca consegui e ainda não consigo explicar, mas com o guia ela se desloca como se não sofresse com as dores, é incrível. Em determinado momento, parou diante de um atabaque e começou a mandar ver, de novo, incrível. De repente, bateu o olho em mim e disse que queria falar comigo. Lá fui, na boa (nunca tive receio ou medo). Sentei e ela, minha vó, através do guia de esquerda, Rosa, começou a falar sem que eu dissesse nada. “A sua carne tá boa, muito boa”. Sorri. “Dá risada agora filho da puta, é que Ele (não tenho certeza se foi esse o termo) te quer aqui pra mais coisas”. Concordei. Mas aí ela falou que a carne do lado direito não tá muito boa ainda, mas que logo vai ficar”. Cara, foi estranho. E emendou que eu só precisava tomar conta dos “sentimentos”, mas que logo mais tudo irá se ajeitar. Também me deu outro conselho: “você tem de resolver o papel das quatro roda”. Não entendi logo de cara, mas lembrei que não paguei os documentos do carro no ano passado e tenho algumas multas. Porra, minha vó não sabe disso! E sobre o “sentimento” não conjecturei nada, ainda fico ressabiado com essas previsões, mas tenho de confessar que dormi bem tranquilo.

No domingo, o batizado. Fomos logo cedo à típica igrejinha humilde de cidade do interior (bem diferente da matriz). Várias crianças sendo batizadas, várias chorando. Chegou a nossa vez. Nos levantamos e fomos à beira do altar. Enquanto a madrinha segura a Yasmin, eu coloco minha mão direita sobre o peito da pequena, que dormia. O padre deixou cair uma quantidade considerável de água na cabecinha da pequena, que não acordou. Foi incrível (de novo). Em bem menor intensidade, me lembrei da emoção que senti quando a Ana nasceu. E foi novamente mágico.

Final de tarde. Volta à São Paulo. O caminho que tantas vezes fiz sem prestar muita atenção está diferente, me parece um novo caminho. Ou quem sabe um velho caminho visto por outros olhos, os de um novo homem.

 


Chico e Vinícius na voz da Mônica Salmaso. Contagem regressiva, menos de um mês para o show!

 

 



Escrito por Pablo às 21h49
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Walk on

Se você sente que fez tudo o que poderia fazer, que construiu e atravessou todas as pontes, resistiu e suportou o inenarrável, ofereceu um novo mundo e mesmo assim a sua corda arrebentou, não se sinta tão mal. Levante a cabeça, pois uma nova primavera começa a cada ano e, mesmo antes da estação colorida e cheirosa chegar (ou antes de seu próximo aniversário), o mundo se revelará repleto de possibilidades. Escolha a sua, mas escolha, a sua. Os barbitúricos e outras drogas (legais e ilegais) podem lhe ajudar muito, mas saiba que a vida lhe cobrará um preço alto pela fugaz tentativa de driblar o que cedo ou tarde estará a sua frente. Creio que posso falar isso sem parecer demagogo ou hipócrita, mas tente enfrentar os perrengues de outra forma. Cara, é difícil, e pode ser muito difícil.

Desde que voltei a trabalhar, há duas semanas, faço de tudo pra mancar o menos possível no trajeto entre o trampo e o estacionamento (dois quarteirões) e, por conta disso, muitas vezes piso de forma errada e fico com dores no joelho, como agora. Tento incutir que em breve a musculatura vai voltar o suficiente pra eu não mancar e não sacrificar todo o esforço de um ano, por quase nada (digo isso porque quinta passada levei (ou tomei?!) um capote homérico ao sair do pilates e minhas costas ainda doem um pouco. Acho que isso é um exemplo de como tento de uma maneira meio torpe maquiar uma deficiência física, provavelmente em seu estágio final, com o intuito de que as poucas pessoas que reparam em mim não percebam o que se passa aqui dentro. Porque é isso mesmo: o problema tá aqui. Não contei, mas hoje vi algumas pessoas mancando também (trabalho dentro de um hospital há 15 anos), mas somente nos últimos dias eu realmente as vi. E aí fico me perguntando, será que elas pensam como eu? E as pessoas com andar normal, o que pensam? Queria realmente ligar o foda-se pra tudo isso, mas não consigo. Até porque ligar o foda-se também é uma maneira bem torpe de enfrentar os problemas e uma hora o foda-se pode estourar no seu colo.

Trabalhar tem sido muito bom. Eu já previa isso, mas começar a trabalhar em meio as férias das duas pessoas mais experientes do setor (o pobre Alê tá lá há um ano e tinha me visto uma única vez, durante a internação) tá sendo desafiador. Percebo que as pessoas têm um certo receio em exigir muito de mim, mas não adianta muito. O fluxo é grande, então mesmo que um peça algo simples, vem outro na sequência e mais outro, mais outro...

Acho que o texto ficou meio desconecto hoje, mas realmente foi um dia cheio. E a vantagem do blog é poder alterar o texto que já se publicou. Como esse, que postei numa versão muito mais enxuta em 23 de setembro de 2010.

Por fim, acho que aprendi que negar uma chance à vida é o que há de mais vil em nossas ações. E não peço uma chance a mim, já estou tendo minha, que tenho aproveitando o quanto posso, com mais parcimônia e calma. Mas se deem uma chance também. E não hesitem em ir à caça deles, seus sonhos.

Puta que pariu, precisei “morrer” pra começar a escrever textos de auto-ajuda!

 

 



Escrito por Pablo às 21h44
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Apenas mais uma boa jogada de xadrez

Nesta madrugada
Ela me espreitou pela segunda vez
Pálida e em trajes negros
Revelou-se surpreendida com minha reação

Escolhi as peças brancas
Foi evidente sua experiência nas primeiras jogadas
Com a inconsequência juvenil dos primeiros anjos
A surpreendi mais uma vez

E como no filme do Bergman
A batalha final foi de comum acordo postergada
E nosso encontro foi remarcado
Nos veremos daqui a vinte dias


O Sétimo Selo 

Block: A morte me visitou essa manhã. Estamos jogando xadrez. Esse adiamento me permite fazer uma tarefa vital.

Morte: Que tarefa?

Block: Minha vida inteira tem sido uma procura sem significado. Digo isso sem amargura ou auto-condenação. Eu sei que é o mesmo para todos. Mas eu quero usar o meu adiamento para uma ação significante.

Morte: Então você joga xadrez com a morte?

Block: Ele é um tático bem habilidoso. Mas ainda não perdi nenhuma peça.

Morte: Como você pode ganhar da morte?

Black: Com a combinação de bispos e cavalos, irei quebrar seu flanco.

Pablo: Qual combinações será que utilizei?

Assisti ao filme Sétimo Selo pela primeira vez ainda no início da faculdade, então lá se vão mais de dez anos. Recentemente, vi novamente e fiquei meio impressionado com esse diálogo e achei que ficarei perfeito pra ilustrar algum texto sobre a morte. Escrevi o texto nessa madrugada, quando exatamente há um ano tive a segunda parada, mas achei que poderia melhorá-lo hoje. Espero que tenha ficado bom.




Escrito por Pablo às 23h24
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A mulher da minha vida

 

Conheci hoje o blog de uma moça, Cecília Mauta (que não conheço), e logo no primeiro post fiquei maravilhado. Ela fala sobre um amor não vivido, mas que foi desejado. Um tema recorrente em nossas vidas e na literatura, e que é capaz de enfeitiçar a cabeça de mancebos passionais como eu. Digo isso porque já me vi algumas vezes desejando uma mulher, em todas as acepções possíveis, e dizer com a certeza que só um bicho que adora se apaixonar é capaz de acreditar: você é a mulher da minha vida.

Por ser um romântico inveterado, termino a leitura de Lembranças e fico com a sensação de que é aquilo mesmo; de que não ter vivido aquele amor faz dele, o amor, um amor quase perfeito. Mas é a perfeição daquilo que nunca existiu. Muito louco, não?.

E nesses momentos, me pego questionando minha racionalidade. Seria leviano generalizar, mas são poucos os que não trocariam essa sensação de amor quase perfeito por um “amor de carne e osso”, cheio de tesão, de dor, de carinho, de cicatrizes e tudo mais de ruim e bom que um amor de verdade pode nos dar. E embora tenha sentido muitas vezes aquele aperto no peito que me fez ter a sensação de que meu coração estava sendo comprimido a ponto de saber que a qualquer momento explodiria, não titubearia em me meter novamente numa enrascada dessas.

E, com toda a sinceridade que nenhum outro homem sonhou algum dia existir, eu sussurraria:

- Você é a mulher da minha vida, a primeira, a última e a única mulher da minha vida.

Mas eu torço mesmo pra que seja a última de fato, porque não sei se eu tenho mais gás não!



Escrito por Pablo às 20h22
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É carnaval!



Escrito por Pablo às 22h14
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Surreal 

Sentimentos transbordantes e inespecíficos me compelem a escrever, mas a profusão de sensações não permite sequer um momento de concentração. Inicio um exercício bretoniano e lanço palavras desconexas sobre a folha em branco.

Umas guardam espaço maior em relação a outras, duas ou três têm apenas algumas letras visíveis; foram eclipsadas. Resolvo parar, a quantidade de palavras me parece suficiente. 

Espalho-as sobre o papel com minha caneta imaginária e fixo o olhar em mim; pálpebras cerradas. A luz pinta o branco do papel num tom vermelho claro, quase alaranjado. As palavras caminham e se encontram, e com toques perfeitos se unem.

Texto pronto. São apenas algumas linhas. Leio, releio. Mas como é possível? Percebo que aquele pequeno texto circunscreve e dá sentido à inespecificidade de outrora.

Cerro as pálpebras com força maior até que a tinta preta cubra a folha toda. As palavras então brilham no escuro como o céu de estrelas daquela cidade do interior.

Estrelas de palavras que transbordaram em um poema de sentimentos.

Texto originalmente escrito em 12 de dezembro de 2007.


Pra fazer em casa: Pense, qualquer coisa. Jogue tudo em uma folha em branco em cima da mesa. Feche levemente as pálpebras após olhar em direção à luz, natural ou não. Talvez alguma ideia surja (se não, culpe o Caê). Feche novamente suas pálpebras, mas com força agora. Espero que seu céu também esteja estrelado!

Pra ler somente após a tarefa: o texto foi escrito há quase cinco anos. Assim, não culpem os 26 minutos (9, 7 e 10) de apóxia por isso. O parágrafo final é de hoje, mas se alguém tiver seguido minhas orientações, pode se considerar meio sequelado! 


Any colour you like
Brain damage
Eclipse




Escrito por Pablo às 16h34
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Este poema do Ezra Pound é o que mais gosto, sem dúvida alguma. E é óbvio que nessa predileção está embutida uma puta pretensão minha, mas quem sabe um dia eu não chego lá!


E Assim em Nínive

"Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

 "Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

"Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho."

(tradução de Augusto de Campos)

 


Eu deveria ter postado este vídeo ontem. O Zeca Baleiro “musicou” um poema do Cummings e ficou sensacional!


 



Escrito por Pablo às 20h33
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Hoje, um do Cummings, amanhã um do Pound, os dois poetas que mais admiro.

E.E. Cummings

já que sentir vem antes

quem prestar atenção

à sintaxe das coisas

nunca te beijará completamente;

 

ser totalmente louco

quando há Primavera

 

meu sangue aprova,

a beijos são melhor destino

que sabedoria

dama eu,juro por todas as flores. Não chores

— o melhor gesto do meu cérebro é menos que

o tremer de tuas pálpebras que diz

 

que somos um para o outro: então

ri, sem medo, em meus braços

pois a vida não é nenhum parágrafo

 

E a morte (eu acho) não é nenhum parêntese

 

Tradução de Augusto de Campos



Escrito por Pablo às 21h40
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Semáforo hipócrita

Farol vermelho, chuva no pára-brisa, noite, luzes, muitas luzes. Visão distorcida, tudo embaçado, bolinhas (ou seriam limões?) brincam no ar. Triste constatação o não se importar, o descaso, a quase desfaçatez. A minha indignação é anulada pela hipocrisia (a minha).

No meu mundo real, o imaginário é atropelado antes de sua concretização. Acho que nasce fora da faixa de pedestres e não chega a engatinhar. Trágico fim daquilo que não teve início. Tento esquecer, abstrair, mas ele insiste em renascer (não ressuscitar). Transvestido, pensa me ludibriar. Verde; acelero e piso fundo, é o fim por hoje.

Texto originalmente publicado em 11 de abril de 2006.

Escrevi este texto durante a madrugada do dia 11 mesmo. Retornava de um bar na Vila Madalena e no farol da Brasil com a Rebouças, duas crianças de aproximadamente 10 anos estavam fazendo malabaris com bolinhas ou limões (realmente não foi possível identificar). Era pouco depois da meia-noite e garoava. Não me lembro se tinha dinheiro ou não, mas tenho certeza de que não dei nada e sequer abaixei o vidro. Já durante a concepção do texto me dei conta da minha hipocrisia, tanto ao escrevê-lo quanto ao longo de momentos da minha vida, pra não dizer quase todos. E agora, me pergunto: será que se eu trombasse novamente com aquelas crianças eu agiria de forma diferente? Difícil dizer. Confesso que creio que agiria de outra forma, mas inocentemente torço pra isso não acontecer, a "oportunidade"... Hipócrita, eu?

 



Escrito por Pablo às 19h33
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